Monday, August 29, 2005

Finalmente, NÓRDICA

Quando criei esse blog, pessoas malas implicaram com a minha falta de nocao geografica: pq "nórdica" se eu estava indo para a Alemanha? Chegou a hora da explicacao.

Uma das fotos mais significativas do meu album de familia é a que estou com minhas duas irmas, sentada no sofa da minha casa em Interlagos. Eu com4 anos, Layla com 3 e Leticia com 2. Leticia esta com a boca suja, segurando uma colher suja, toda suada, com os cabelos enrolados colados na testa. Layla, como na maioria das fotos da nossa infancia, parecia nao estar ali. Arrumada, mas com o olhar distante, para ela tanto fazia estar naquela foto. E eu, com sapatos de fivela brancos, meias soquetes brancas impecaveis, vestido, fita no cabelo loiro, loiro, liso, bem penteado e olhos verdes. (é importante dizer que a unica coisa que restou desta crianca em adulta foram os olhos verdes). Eu era muito nordica.

Quando cresci, fui para o Rio e dourei meu cabelo com Doura-Pelo nas praias de Copacabana, o meu apelido de nordica ressucitou. E toda a vez que eu aprontava algo bem sem nivel, como roubar um prato de macarrao em um restaurante e minha familia ficava sabendo, eles soltavam "é muito fina, nordica, mesmo". Tai a explicacao, sem relacao alguma com os paises da Escandinavia.

Mas, estando na Europa, era mais que esperado que eu fosse buscar minhas origens, mesmo que apenas por semelhanca (ou pela falta dela). Pois semana passada fui para a Suécia e Finlandia. E descobri que nao sou nordica porra nenhuma.

Em primeiro lugar porque as suecas e finlandesas sao loirissimas, belissimas e MAGRAS! Muito muito magras. E lindas. E bem vestidas. Deixam as alemas no chinelo.

Estocolmo é simplesmente maravilhosa. A cidade nada, é um arquipelago mesmo, vc vai andando e conforme vai atravessando as pontes, vai mudando de ilha. Todas com nomes ininteligiveis. Uma coisa muito diferente que eu observei la é que tudo é feito com calma, sem pressa. Ate em rede de Fast food, nao tem gritaria "numero 2, com batata media", cada funcionario cuida do seu pedido, em um ritmo normal. Em pleno dia de semana, nao tem transito nenhum na cidade. Outra diferenca marcante dos suecos em relacao aos alemaes é que os suecos OLHAM para vc. Nao com olhos famintos, nao xavecando,nao. Mas eles sabem que ali tem uma PESSOA, o que nao ocorre aqui na Alemanha. Isso é realmente muito esquisito aqui, vc anda no transporte publico com as pessoas e ninguem se olha. Puta merda.

Mas a parte mais legal da viagem foi sem duvida o navio que atravessa o Mar Baltico de Estocolmo para Helsink, capital da Finlandia. Tinha pedido a passagem mais barata, de estudante. mas eu nao sabia que era tao de pobre. Meu, a viagem dura 16 horas, e eu fui sentada em uma poltrona, enquanto aqueles nordicos ricos todos na cabine. Raiva, odio, suja, sem banho.

Mas o legal de viajar sozinha é que as pessoas nao tem vergonha de se aproximar de vc para puxar papo. conheci tanta, tanta, tanta gente nessa viagem, impressionante. Na ida, conheci duas senhoras, a Leda e a Silvia, brasileiras que estavam na excursao da CVC. Meu, as senhoras me deram um banho de animacao. As duas se acabaram na seresta do navio, se e me encharcaram de vinho, arrumaram paqueras da terceira idade internacional no navio. Vendo a minha condicao de estudante, elas roubavam coisas dos jantares do navio. No comeco, elas pegavam leve, roubavam so uma maca, um pao. Eu sei que no cafe da manha do dia seguinte, a Leda ja tinha me roubado uma baguete e um ovo. hahahahahahah. Conheci um grupo de suecos-gays-que-falavam-alemao, a gente se acabou dancando hits gays da dec 70. Conheci um casal de finlandeses, o cara trampava em uma cervejaria na Finlandia e fez questao de pedir varias brejas e explicar uma a uma, sem me deixar pagar nada. Conheci um holandes muito muito gente boa, que ao final da viagem me confessou que nao era holandes porra nenhuma, que era do Curdistao, mas nao falava para as pessoas pq tinha medo que confundissem-no com terroristas iraquianos. A cada passo que eu dava naquele navio era uma bizarrice.

Ah, descobri tambem que assim como o Brasil tem rivalidade com a Argentina, os finlandeses tem com os suecos. Claro que tambem por causa da colonizacao (A Finlandia ja foi dominada pela Suecia e pasmem, pela Russia), mas é muito engracado ver os finlandeses falando dos suecos. O senso de humor deles é bem melhor que os dos alemaes tambem. Saca so: no City Hall, que é o lugar onde io premio do Nobel é festejado, é um edificio do comeco do sec 20. dai tem um quadro de um cidadao na parede. O guia pergunta: "vcs sabem quem é esse? nao? nem tinham como saber. Quando o edificio foi terminado, perguntaram para os operarios quem tinha sido a pessoa mais importante para eles durante a construcao do predio. e eles responderam que era esse cara ai na parede, que nao é nada mais nada menos do que a pessoa encarregada por abastecer os operarios de vinho e cerveja" hahahahaha, nao é que os suecos tambem tem a pegada?

Tuesday, August 23, 2005

Uma breve visita ao Papa

Ta bom, ja prometi mil vezes a mim mesma que nao vou mais cair na tentacao de escrever materias. Vim aqui para estudar e etc, a mesma balela de sempre. Mas essa foi irresistivel. Eu estav bem sossegada na sexta-feira, chuva, assistindo Tv. Comeceia a ver as imagens do Papa em Köln, ele estava aqui para o encontro mundial da juventude crista. No dia seguinte, o programa mais animador que eu eu tinha era ver as minhas irmazinhas alemas participando de uma corrida. Pensei e fui. Fui para Köln ver o Papa.

Corrijo, tentar ver o Papa. Eu sabia que a cidade estaria mais cheia, mas nao tinha nocao do proporcao do que era essa "mais cheio". Peguei o trem dos pobres, que faz varias conexoes ate chegar na cidade desejada e é mais lento. Mas foi bem legal, pq o trem segue para Köln margeando o Reno e o caminho é super bonito, tem ate um passeio de barco que sai de Frankfurt e vai ate Köln que é chamado de caminho romantico, de tao bonito.

beleza, quando cheguei em Koblenz, que é uma das cidade da regiao que o transporte faz ligacao com Köln, comecei a ter ideia em que eu estava me metendo. Centenas de grupos de jovens empunhando bandeiras de paises dos quais nunca ouvi falar (nao que meu forte sempre tenha sido geografia, mas...). Nem precisei olhar na minha passagem para ver qual era a plataforma em que chegava o meu trem: freiras esperavam impacientemente na plataforma do lado de onde meu trem chegara. E todo mundo alvorocado, cantando, rezando, de mochiloes, comendo comida enlatada e muito feliz, pela possibilidade de em breve ver a Vossa Santidade.

Em Koblenz entao peguei o trem para Köln. Simplesmente lotado. Consegui arrumar um lugar ( foi engracado, pq a viagem dura mais ou menos uma hora, mas muitas pessoas nao fizeram nem questao de sentar, ficaram de pe com suas mochilas, sacos de dormir e cantis, mal esperando para chegar em Köln). Puxei papo com uma senhora do meu lado. Ela tem 48 anos, veio de Freiburg, sul da Alemanha. Era mais ou menos 13h, ela tinha saido de Freibrug as 5h. Tudo em nome do senhor. Carregava uma mochila gigante: ela ia dormir no Marielfeld, um descampado onde o Papa realizou a vigilia com nada mais nada menos do que 900 mil cristaos. Ela disse "Claro que vale a pena sair de longe para ver o Papa, é uma oportunidade unica, mesmo que eu nao esteja mais em idade para fazer esse tipo de coisa". Ela estava acompanhada de 3 amigas, todas idosas, da Igreja. ninguem se importa com conforto quando o assunto é ver o Papa.

O casal que estava a minha frente no trem parecia impaciente. por incrivel que pareca, eles nao iam para Köln para ver o Papa, mas sim para assistir um festival de musica. "Eu ja tinha comprado esses ingressos ha muito tempo e nao tinha percebido que coincidia com a visita do Papa. tive que vir de trem porque algumas estradas foram bloquedas por medida de seguranca e as que estao funcionando estao com congestionamento", disse a mulher.

De repente, o maquinista solta uma mensagem "Damas e cavalheiros, peco aos que estao se dirigindo a Köln que desembarquem em Brühl, onde ha transporte direto para o Marienfeld. A estacao principal de Köln esta operando em sua capacidade maxima. Repito, por favor, desembarquem em Brühl". O que aconteceu foi que Köln nao oferecia infra-estrutura sufiente para acomodar essa quantidade de gente. As pessoas foram distribuidas tambem nas cidades vizinhas, como Düsseldorf, Wüppertal e Brühl. Desembarquei em Brühl e uma multidao de caravanas multinacionais esperavam o transporte para o Marienfeld. Mutos, muitos brasileiros nesse meio.

Conversando com jovens de uma caravana da Bahia, percebi que para muitos deles, estar ali, naquele momento era muito mais que ver a maxima autoridade da Igreja Catolica: era uma oportunidade unica de conhecer a Europa. "Eu fui convidado no comeco desse ano para vir para ca. A gente nao pagou nada, quem pagou tudo foi a Igreja na Alemanha", disse um menino de 18 anos, da Bahia. Ja viu o Papa? "Ja,vi ontem. Mas acho que eu ia ficar mais emocionado se fosse o outro Papa, vc sabe como é, esse Papa ai é novo, a gente ainda nao conhece muito bem". Sim, sim, sei como é.

Peguei outro trem para Köln, pq afinal, eu queria conhecer a Dom, que é acho que o maior referencial catolico na Alemanha. Quando se chega na Hauptbahnhof (estacao principal) de Köln ja se avista a catedral. É realmente impressionante, mesmo de longe.

Na estacao, mais brasileiros, injuriados, sentados no chao. Puxo papo com duas senhoras, muito bem apessoadas, do Parana. Papo vem, papo vai, emerge o motivo de tanta insatisfacao "Olha menina, eu sei que vc ta morando aqui, a Alemanha é muito bonita. mas desculpa, faltou organizacao aqui. Essa cidade nao tem infra-estrutura para receber tanta gente. Nao tem banheiro, temos que dormir ao relento, assim nao da. Ainda bem que antes de chegar aqui a gente passou em Paris, Vienna, passeamos um pouquinho, pq senao, a viagem era perdida. Sinceramente, nem tenho mais vontade de ver o Papa", diz uma delas, azedissima. Entendo, concordo: sem conforto, nao ha fe que resista, nao, senhoras?

E tudo bem que o motivo da visita é nobre e de fé, mas nao da para deixar de lucrar em cima dele, certo? Uma ida ao banheiro, que normalmente nas outras estacoes de trem custa 0,60, no maximo 0,80 euros, na estacao de Köln estava custando nada menos que 1,10 euros. Todo cristao tem necessidade, seja fisiologica ou nao, certo? A água, que raramente ultrapassa o preco de 2 euros, na estacao de Köln custava a bagatela de 3,50 euros. Assim, nem Jesus aguenta.

De cara com a estacao esta a catedral. Seguem-se muitos degraus para chegar a igreja e todos eles estao ocupados por jovens (ou nem tanto) mochileiros. A praca esta uma balburdia. E se todos os deuses sao um so, Köln representava bem isso. Hare Krishnas dancavam com um caravana de cristao do Texas. Nao é que os compatriotas de Bush se mostraram mais tolerantes que o proprio?

Ao lado dos Hare Krishnas, um rapaz segura uma placa "Jeses salva", em alemao. Mas eu mal consigo ver a placa, ele esta cercado de lixo. Köln nao resiste taio bravamente a visita de 900 mil pessoas.

Entrando na Dom. Construida no sec 4, essa catedral foi quase inteiramente destruida com bombardeios na Segunda Guerra Mundial (o que nao é muita novidade se tratando da Alemanha). A diferenca é que uma parte dela se mantem destruida, como lembranca dos tempos dificeis (bonito isso, nao?). Todos os bancos foram retirados para acomodar melhor o contingente de visitantes. Segundo o vigia da Dom, normalmente a media de visitante por gora é de 1000 pessoas. No Encontro Mundial na Juventude, ela simplesmente sextuplicou.

Olhando uma foto do Papa Joao Paulo II ali na frente da Dom, dessa vez foi uma velhinha que puxou papo comigo. Ela, que mora em Köln, diz que se alegra de ver tantos jovens cristaos juntos, que a cidade regojiza de alegria ao ver que existem jovens que nao sao vandalos, que estao no caminho de Deus. E completa "melhor que isso, so o Karneval". Explico: a cidade tambem é famosa por seu carnaval, que embora tambem aconteca em fevereiro é totalmente difernte do Brasil. Nao espere bronzeadas bundas rebolantes, por obvios motivos climaticos e religiosos. Segue ae uma foto, so para ter uma ideia.

Dei risada, concordei e continuei andando. Afinal, gosto e religia, ninguem discute.

Wednesday, August 17, 2005

Com licenca...

Mas Ceica, posso fazer das suas palavras as minhas?

Wednesday, August 10, 2005

Pau na espiral do silencio

Obrigada, Marcelo Coelho. Com esse texto (na integra abaixo), vc me fez sentir uma pessoa melhor hoje. ( na verdade, é só o comeco do texto, mas...)

Eu sempre gostei de conhecer coisas novas, mas nao gosto tanto de viajar como todo mundo diz que gosta. Em primeiro lugar eu acho meio abstrato falar "eu gosto de viajar". O que é gostar de viajar? Pegar aviao? Ficar em um lugar novo por uma semana? Pegar o mapa da cidade visitada e correr para todos os pontos turisticos para bater uma foto?

Nao sei, posso estar enganada, mas acho tudo isso meio vazio. Nunca tive muita coragem de expor essa minha opiniao publicamente. Talvez porque eu nao soubesse extamente o que me incomodava tanto quando as pessoas dizem que "viajar é a melhor coisa do mundo". EU NAO ACHO. Mesmo.

Mas tambem depende da viagem. O meu tipo de viagem preferido é quando vc manda o Guia Turistico para a puta que o pariu e tenta entrar no cotidiano daquela cidade, observar como as pessoas vivem, quais lugares elas frequentam, quais sao seus habitos. Coincidentemente, conversava ainda ontem mesmo sobre isso com um amigo. Sinceramente, nao vejo sentido nenhum em disputar espaco com as cameras japonesas para tambem tirar minha foto. As minhas viagens favoritas, foram as que eu nao dei tanta bola para os pontos turisticos. Rotterdam, eu aluguei uma bicicleta e rodei, rodei, parei em uma mercado, comi um pedaco de melancia, parei na beira do rio, fiquei um tempao sentada. Eu vejo muito mais beleza nessas coisas pequenas no que nas coisas grandes.

E mesmo aqui. É logico que dou valor para o que estou passando aqui. Logico que eu sei que estou na Europa, que é uma puta experiencia de vida, que eu estou aprendendo a cultura de um povo. Sim, sim, sei de tudo isso. Aqui é minha casa, sim, por um ano. mas quando me imagino de volta ao Brasil, a imagem que sempre me vem a cabeca é de eu indo a algum cinema na regiao da Paulista em um domingo a noite, tomando um cafe e voltando para casa a pé. Nao é nada de extraordinario, alias, é a coisa mais ordinaria do meu cotidiano no Brasil, eu fazia isso quase todos os domingos a noite. Mas por incrivel que pareca, é sempre nisso que eu penso quando me vejo de volta.

As CPIs sob a ótica do entretenimento
Gosto de viajar, mas fico espantado quando me dizem que é "a melhor coisa do mundo". Acho mau sinal. Samuel Johnson escreveu, famosamente, que "quem se cansa de Londres cansou-se da vida". Do mesmo modo, se alguém não gosta de ficar em casa, presumo que ande em más relações consigo mesmo.Não digo -quem pode dizer isso em sã consciência?- que aqui por dentro tudo esteja às mil maravilhas. Mas foi um prazer passar boa parte das férias instalado num sofá, de posse do controle remoto da TV, com jornais e revistas à minha volta, assistindo aos trabalhos da CPI.Sem desmerecer os problemas reais que estão em jogo, e a gravidade da crise, o fato é que acompanhar as comissões parlamentares tem sido um grande entretenimento.Desde o início, viu-se em Roberto Jefferson uma figura de grande talento teatral. Na verdade, ele é mais operístico do que teatral. Sua voz bem modulada, os olhares fixos de ameaça, a gesticulação contida, o capricho da indumentária, o "timing" das entradas em cena -tudo em Roberto Jefferson traz aquela mistura de fanfarronice e veracidade, de premeditação e ímpeto, de sutileza e brutalismo, de breguice cultivada e refinamento elefantino que caracteriza os astros da cena lírica, os Pavarottis, os Bocellis.Jefferson parece às vezes pronto a ajoelhar-se em prece, de estender a mão ao adversário, de expor-se ao sacrifício de peito aberto, como um Cavaradossi diante do pelotão de fuzilamento; mas de repente se transforma em outro personagem da mesma ópera, e seu sarcasmo, sua gélida estratégia de ataque, seus olhos vítreos de ódio o tornam capaz das chantagens pérfidas de Scarpia.Mas não é com a "Tosca" de Puccini, e sim com um programa bem mais prosaico que as sessões da CPI se parecem em certos momentos. A culpa não é tanto dos parlamentares quanto da própria televisão, que diminui, esfria e tira a nobreza de tudo. Peço desde já desculpas pela comparação, mas o espetáculo também tem sua dose de programa humorístico -daqueles antigos, em que cada ator era encarregado de um personagem fixo, sucedendo-se todos na mesma praça ou numa sala de aula: a velhinha surda, o bom aluno, o falso valentão, o marido ciumento, a pobretona com mania de grandeza, o corintiano fanático, o trapalhão erudito...Digo isso sem malevolência, porque acho admirável o trabalho da CPI e, embora o desempenho de alguns de seus membros seja pífio ou repulsivo, é grande o número de boas surpresas, de novos talentos políticos e de exemplos de inteligência parlamentar atuando ao vivo nessas sessões. É como se o Legislativo produzisse uma autovacina: nunca tantos políticos estiveram sob tanta suspeita. Ao mesmo tempo, o regimento funciona, os debates seguem, bem ou mal, as leis da lógica, o presidente e o relator mantêm uma atitude ponderada, as paixões e os interesses partidários, por mais que resistam, acabam tendo de se dobrar às evidências de cada caso concreto: o espectador, ainda enojado com o que vê, também reconhece, na minha opinião, a beleza da atividade política.Desse sentimento ambíguo provém o fascínio do espetáculo. Por isso mesmo, todo mundo acha graça na forma de tratamento utilizada pelos deputados, aquele "Vossa Excelência" que precede o discurso insultuoso. Não sei se a graça da fórmula está apenas no fato de que resume a hipocrisia parlamentar. Talvez também se descubra a existência de um mundo bizarro, vagamente enlouquecido, com seus personagens de nomes exóticos, Delúbios, Idelis, Onyxes e Wandervais. Em meio a toda a irrealidade da cena, a todas as complicações da investigação, o que se revela, no fundo, é a chocante simplicidade de um roubo.O entretenimento, assim, instaura-se em sua plenitude: como num típico programa de TV, pequenas e incontáveis variações de forma reiteram o mesmo conteúdo simples, enquanto a rotina das figuras que sempre aparecem, reconhecíveis e impagáveis, tem um efeito confortador. Repetição e surpresa, por sua vez, são dosadas com sabedoria, mantendo-nos num estado entre o interesse e a desatenção, e continuamente a par, mas sempre insatisfeitos quanto ao desenrolar da história.Escrevo "entretenimento", porque não estamos nem diante da farsa nem do drama. E, mesmo da ótica do puro espetáculo, a CPI também se reveste de uma dimensão mais nobre.O escândalo que toma conta de Brasília tem tudo para nos deixar desanimados, acreditando finalmente na tese de que todos os políticos são iguais etc. Ao mesmo tempo, o que vejo nas sessões da CPI se fragmenta maravilhosamente em todas as cores do caleidoscópio humano.Um deputado aparece de dedo em riste, aos gritos, um monstro de truculência cega e surda: em outras épocas, seria inquisidor ou policial fascista. Outro age com benevolência, dignidade provinciana e desconsolo. Uma deputada parece arrancar o próprio coração nos seus excelentes discursos; outros tentam fazer o mesmo, e não encontram nada.Há os perdidos no tiroteio, os que olham para baixo, os que vêem longe; há os cínicos, os arrependidos e os indiferentes; os triunfantes e os modestos, os avarentos de seus minutos e os caridosos com o adversário, os santos, os condenados, os medíocres, os que mais se assemelham e os que mais se diferenciam de cada um de nós.Não é um programa humorístico, é a comédia humana, que se renova mais uma vez.

Sunday, August 07, 2005

Outros momentos que merecem ser relatados

O estranho caso dos brioches
O vizinho da frente da casa de praia é um tarado. Ele tem mais de 60 anos e passou as duas semanas espiando pela veneziana. Eu estava resistindo bravamente, na maior educacao e finesse, àquele sexagenario de olho nos meus brioches dia e noite. O segredo era sempre dizer um "Bon soir" e sair fora rapidinho. Ate que um dia a Andrea convida ele para tomar um drink com ela e com o Paschal, na varanda. Ele e a mulher sentados na varanda, eu sai do banho e nao vi que eles estavam la. Calma, eu estava vestida, é claro. Mas descia escada dizendo "Andrea, o que a gente vai preparar para a janta?" e nisso ela me responde "O que vai ter para a janta eu nao sei, mas o Claude (o velho em questao) quer te jantar". Nisso, vejo os quatro na varanda. A Andrea sem nocao, me falou que ele queria me jantar na frente da mulher do homem. O clima azedou, a mulher foi para a casa dela. E vc acha que a Andrea se importou? Bobagem, ela e o Paschal ainda ficaram uns 15 minutos rindo.

Lorena para cima, Lorena para baixo
Inventei de ir nessas camas elasticas, sabe, dessas que te amarram um elastico na virilha, outro no suvaco e te mandam pular, sem parar. Quem foi comigo, uma chance? Claro, a Andrea. Eu escolhi, estrategicamente, um horario em que o movimento era menor, para nao formar aquela aglomeracao e todo mundo ver eu pagando o mico em um brinquedo para criancas. É logico que foi so o cara amarrar o elastico na minha virilha que juntou umas 50 pessoas para ver a palhaca pular, ne? O funcionario me pergunta maior alto " Quanto vc pesa?". Se eu falasse frances, diria que essa pergunta nao se faz a uma dama, mas como nao falo respondi "58". Ta certo, admito que adulterei meu peso em dois quilos, mas como dizem meus amigos engenheiros, esses brinquedos sao construidos pensando em pessoas como eu, que mentem ou nao seguem as regras adequadamente. Beleza, meu, foi maior da hora pular. Parece que vc ta la no alto, vendo o mar, os pelicanos aiaiai, ate que me distrai e esqueci de continuar a pular. Resultado: fiquei supensa no ar, presa pela virilha e pelo suvaco, gritando "Hilfe" para a Anna e para a Saeah, que gentilmente e em meio a gargalhadas, se incumbiram de puxar, cada uma, um dos meus pes e fazer eu voltar a quicar.

Tradicao e tradicao
O lema é dancar conforme a musica. Se vc ta na Alemanha, tem que usar sandalia com meia e comer salsicha. Se vc ta na Franca, tem que comer baguete e ir busca-las de bicicleta. A partet de traze-las em baixo do braco, por motivos de higiene eu resolvi pular. Dava umas 10 horas, saia eu de bicicleta para ir bucar as tais baguetes. Oculos de sol, cabelos ao vento, biquini, pagando da gatinha. Comprei as baguetes, enfiei em uma sacola e estava voltando para casa. Me distrai por alguns momentos olhando um frances e quando vi a alca da sacola enganchou no guidao. Sabe aquele momento em que vc sabe que a queda é inevitavel, mas mesmo assim ainda tenta pateticamente salvar? Foi esse momento que se sucedeu, por alguns segundos que pareceram minutos. Lorena para um lado, baguetes para outro, todos no chao. Logo apos esse momento patetico, segue invariavelmente o outro momento ainda mais patetico: a hor de se levantar e olhar rapidamente em volta para tentar estimar quantas pessoas viram seu papelao. Claro, todas as possiveis. O negocio é levantar, recolher as baguetes, assopra-las para tirar o po e seguir para a maison, onde todos anseiam pelas tais.

Guerra é guerra
Estava dando uma volta na praia, bem na beirinha da agua, quando vi uma familia brincando de guerra de lama. Eles faziam altas bolotas e atiravam uns nos outros, sem do. Cuidadosamente, desviei-me da artilharia pesada. Mas eu nao vi foi que uma velha, da familia, estava submersa, esperando o melhor momento para o ataque. Quando eu vi a velha levantando, com o maio torto deixando os peitos a mostra e o cabelo na cara, ja era tarde demais. Adivinha quem ela atingiu?

Torre de Babel - Um jogo para criancas e adultos

Embarque voce tambem nessa emocionante aventura!

Missao: Chegar ao fim de uma temporada de férias no sul da Franca mantendo boas realacoes com todos os habitantes da casa de praia.

Participantes
Andrea:ela é a sua mae alema e nao te trara maiores dores de cabeca. Seu unico objetivo e arrumar mais tempo para fazer sacanagem com o namorado frances e para isso, ela lancara mao de todos os trunfos que tiver na manga. Ela nao hesitara em te empurrar para cima do filho do namorado, que tem apenas 15 anos, ou para cima do vizinho da frente, que tem mais de 60. Sua maior vantagem é que ela é a unica na casa que entende todos os idiomas que sao falados (portugues, frances e alemao)

Paschal: namorado da Andrea. Seu objetivo maior é levara vida numa boa, sem maiores problemas (isso inclui, logicamente, fazer muita sacanagem com a hot hot alema). Se ponto forte é o dom de consertar coisas. O que vc bota na mao do homem ele conserta, ele instala, ele deixa novo. Andrea usa de seus servicos dia e noite, literalmente.

Florian: Filho do Paschal, 15 anos. Dizem que ele fala ingles, mas o ingles dele é tao bom como o meu frances. As unicas palavras que ele me disse em ingles foi "good, lowrena", em um jogo de futebol na praia. (palavras pelas quais paguei um preco muito alto, pois as minhas irmazinhas alemas ouviram e nao cansaram de repeti-las paera mim pelo resto da viagem). Com os hormonios a flor da pele, ele nao medira esforcos para te mostrar o quao Don Juan ele é. O ponto forte dele, sem duvida, é o condicionamente fisico. (Com 7 anos a menos do que eu, nao bebe e nao gosta de sair a noite, meu corpo sofria a cada vez que ele me convidava para andar de bicleta. Numa das vezes, ele me disse que era so uma voltinha e me fez pedalar 10 quilometros ate a cidade vizinha). Ele tambem possui o dom da visao seletiva, ou seja, so ve o que quer. Ele ignorava o lixo abarrotando a entrada da cozinha, mas tinha um olho clinico para descobrir a sobremesa no fundo da geladeira.

Marion: Filha do Paschal, 10 anos. O ponto forte dela é a falta de nocao. Ela vai ignorar o fato de que vc nao fala frances e vai conversar com vc nessa lingua, como se fosse a sua lingua mae. Ao final de cada frase ela soltora " Tu compreend?", mesmo sabendo que vc nao ta entendendo nada. E quando vc disser "Non", ela vai repetir a mesma palavra 1000 vezes, como se as palavras fossem auto explicativas. Ela vai passar os 7 dias da temporada gritando com uma voz fiiiiinnnnaaaaaa e so parando esporadicamente para chorar, quando o Florian metia a mao nela. (nesse ponto, devo dizer que eu fui a tia mais legal que uma crianca pode ter. eu so interrompia as brigas se visse sangue e como eu sempre estava bem absorta lendo alguma coisa ou jogando algum jogo, podia jorrar sangue que eu nao veria nada)

Ocean: Filha do Paschal, 10 anos. Sim, ela é irma gemea da Marion, porque desgraca pouca é bobagem.

Anna: Filha da Andrea, 11 anos. Imbativel em qq tipo de jogo, desde banco imobiliario, jogo de cartas, pimbolim ou xadrez, essa crianca de 10 anos vai te dar um banho. Sera sua aliada, gracas ao presente e aniversario que vc deu para ela, a trilha sonora do Rei Leao. ( ela é tarada pelo filme, assisti com ela, pelo menos, 5 vezes. Hakuna Matata é o caralho)

Sarah: Filha da Andrea, quase 12 anos. Com um fino senso de humor, ela usara de fatos da sua vida para tirar sarro da sua cara. O fato do seu paquera ter cara de turco pode ser um deles. Sera outra imporante aliada na luta contra os franceses.

BREVE RESUMO DA PARTIDA
Agora falando serio, descobri muita coisa sobre criancas e sobre adultos nessas ferias. descobri que independente de vc falar ou nao a mesma lingua que uma pessoa, tem uma linguagem que é maior que as palavras, a afinidade. Mesmo eu nao falando uma palavra de frances e o Paschal tb nenhuma de alemao ou portugues, demos boas risadas nessas ferias, sem previsar da traducao da Andrea. Gesto, mimica, tudo vale, quando vc quer se fazer ser entendido. E ter vontade tb, é claro.

Com as filhas dele eu nao tinha a menor vontade de conversar. Mas descobri que com criancas, tem uma outra linguagem que funciona muita melhor que as palavras, que é a brincadeira. Sem querer tomar o lugar da Piti como pedagoga da turma, a hora que juntava todo mundo para jogar alguma coisa era a hora em que todo mundo se entendia de algum modo.

Entendi como educar criancas é uma arte e agradeci aos meus pais por terem tido tanto empenho na minha educacao. Esse poco de finesse que é a minha pessoa nao é por acaso.

E por fim, repensei se eu realmente quero ter 5 filhos. No momento, acho que tres ta de bom tamanho.