Intensivao festas
Tá chegando a hora de ir embora. Nao só minha, mas de muita gente que chegou para o semestre de verao aqui. A velha guarda vai toda embora ate, no maximo, abril. E com isso, comecou o intesivao festas de depedidas. Mas na verdade elas sao apenas pretextos.
So essa semana foram 4 festas. Beleza, tres da mesma pessoa, que nao contente ainda vai dar mais uma "festa de despedida"na semana que vem. E é sempre no mesmo esquema, a galera fica sentimental, recordando tudo o que se passou nesse ano, e como foi legal, e como a gente virou uma familia, chora, vai no engradado e pega mais uma cerveja. Para afogar as mágoas e pá.
O embalo ja comecou na festa de sabado passado, quando os brasileiros resolveram se juntar aos espanhois e fazerem a FESTA HISPANO BRASILEIRA. Agora imaginem, juntar os dois povos que mais quebram tudo aqui e adicionem o fato de que um monte de gente está indo embora e nao tem nada a perder. Sinonimo de palhacada, claro.
Palhacada maior foi quem decidiram deixar no bar: Eu (dispensa comentarios), o Daniel (videm posts anteriores), o Paulo (que na festa passada ficou tao bebado que foi encontrado em cima do aquecedor dormindo apenas no final da festa), o Silvio (que ja tinha avisado dois dias antes que ia quebrar tudo e é um causador profissional) e o Gustavo (o rei das menininhas). Senhor pai amado!
A gente se revezava entre caixa, atendimento e a fabricacao em serie das caipirinhas. Os espanhois do nosso lado, vendiam sangria. E é claro que quem fica no bar bebe mais. Afinal, de quando em quando tem que provar as caipirinhas para ver se estao ok e tal. Os gringos, loucos, descontrolados pedindo as "caipis" sem parar, uma atras da outra, e a gente so provando.
O problema é que as caipirinhas eram feitas em série, de no minimo 6 por vez. E tinha vez que o fabricante da vez de caipirinhas esquecia se ja tinha posto pinga em alguma, acucar em outra ou limao naquela. Confesso que fiquei com vergonha de ter cobrado dois euros por algumas caipirinhas, mas sao ossos do oficio. Os clientes davam um gole, faziam uma cara horrivel, pensavam em reclamar, mas depois desistiam.
Depois de um tempo, comecou a rolar o intercambio sangria-caipirinha com os espanhois do lado. Ah, tinha um placar tambem, um da Espanha e um do Brasil, para ver quem catava mais. Super maduro hahahahahah.
O que ferrou foi que depois de um tempo, comecou a faltar limao, e só tinha vodka e acucar. Quem nao tem cao, caca com gato e mandamos bala na vodka com acucar. O povo nem percebia mais o que tava tomando. Tinha uma gordinha maoir cachaceira, a primeira caipirinha da noite que eu fiz para ela, foi bem forte, seguindo aos proprios pedidos da donzela. O daniel encheu de pinga, ela provou e falou "da para por mais pinga?". dai meu objetivo virou embriagar a dita cuja. Ela encostava no balcao, eu nem deixava ela pedir e ja dava uma bebida na mao dela, reforcada. Ela era um saco sem fundo, quanto mais eu dava, mais ela aparecia. Teve uma hora que ela roubou uma caipirinha, mas ela tava tao louca que eu fingi nao ver nada. Mas no final eu achei que ela nem tava tao louca. Dai no dia seguinte ouvi os comentarios de que ela tinha apagado um cigarro na orelha de um menino, que indignado, comprou um copo de sangria e derrubou a bebida inteira na cabeca dela. Super maduro hahahahahahahh.
E o descontrole nao tinha limite. Depois que eu vi um amigo nosso se fingindo de enforcado num cabo de luz, eu sabia que a tendencia era so piorar. A galera subiu na pia e comecou a tirar a roupa. isso é meio que tradicao nas festas espanholas aqui, as meninas sempre fica, rebolando de sutia em cima do palquinho. Os brasileiros entraram na onda, tiraram a camisa, fizeram bunda lele e por fim, quebraram a pia, claro. Maduros, sim.
Mas o mais engracado é que com esse negocio de despedida a galera comeca a se apegar em coisas que até entao nao se apegavam antes, como se quisessem criar lacos, mesmo. Aqui em Darmstadt, tem varias moradias estudantis, e metade dos brasileiros moravam em uma e a outra metade em outra. Sempre fomos amigos, mas por morar em lugares diferentes, as vezes nao saiamos tao juntos. Mas como todo mundo vai embora, comecou a rolar uma aproximacao, até entao menos intensa. Sem contar o saudosismo "Foi do caralho esse ano na Alemanha ", com ollhos marejados.
Comigo, como de costume, a ficha demora um pouco mais para cair. Quando vim para ca, demorei uma semana para perceber quanto tempo eu ia ficar aqui. E quando percebi, fiquei mal. Por enquanto, eu to bem sussa. Mas acho que ainda nao processei que vou ficar um tempo indefinido sem ver as minhas irmazinhas alemas, a louca da minha mae alema, o fofo do meu pai alemao, o meu tandem alemao. Acho que ainda nao entendi que eu nao vou mais poder andar com zero porcento de medo nas ruas, nao vou mais andar de bike, nao vou mais ouvir alemao no onibus.
Acho que o que eu to mais anciosa para voltar, alem de rever minha familia, é por ter a sensacao da volta. Uma coisa mais de auto conhecimento mesmo. Eu estou curiosa para ver como eu vou me sentir, como vai ficar o meu olhar para as coisas depois de um ano intenso de novas experiencias sem o menor contato com a vida que eu levava antes. Será que meu olhar ficou mais critico? Será que eu fiquei mais tolerante? Será, afinal, que esse um ano me fez uma pessoa melhor?
Mas o foda é que eu tenho certeza que todo esse sentimento vai se escafecer assim que eu entrar na marginal Tiete, sentir o cheiro do rio, ficar uma hora parada no transito e entao eu vou pensar "Que que eu vim fazer aqui?".
E depois de um tempo vou me acostumar e vou voltar a nunca mais pensar em sair de Sao Paulo.
