A vida universitária dói
Para quem não sabe, voltei agora no começo de março. Vou pular a parte de como voltar é esquisito, reconhecer pessoas e espaços, como nada mudou mas tudo mudou, o olhar estrangeiro sob o lugar que vc viveu sua vida toda. Essa parte eu vou pular e vou para a parte prática. (por falar em prática, aos jornalistas que gentilmente lêem esse blog, estou no mundo da prostituição jornalística e aceito frilas)
Passei esse mês me março praticamente fazendo duas coisas: revisitando pessoas e indo na USP. Resolvi por minha vida em ordem, chega, eu sou praticamente um dinossauro da FFLCH. Estou fazendo 9 aulas na Letras e mais aulas no Goethe. Esse experiência intensiva de universitária me fez observar uma figura sempre presente nas salas de aula: o chato.
A figura do chato é mais complexa do que imaginamos. O momento orgasmático do chato é a sala de aula, já que ninguém na sala de aula se levanta e grita para o chato "porra, mano, vc é chato para caralho", coisa que facilmente aconteceria em uma mesa de bar. O chato pode ser chato na essência, no estado mais puro da sua natureza.
O resultado da minha observação detectou que, basicamente, existem 4 tipos de chatos. As chances de não ter nenhum chato na classe é reduzida, assim como a chance de concentrar os quatro. Normalmente, classes comportam dois chatos, o que já é o suficiente para te tirar dos nervos e sair da aula se questionando se ao invés de se matar todos os dias nas salas abafadas da USP e disputar espaço a cotoveladas para pegar o último pedaço de melancia no bandeijão, se não seria mais fácil economizar alguns neurônios, pagar uma boa academia, comprar calças e tops de cotton agarradinhos, ficar gostosa e arrumar um otário que te banque pela sua bunda. Não, vamos lá, Lorena, vc é uma mulher moderna, quer estudar, vamos lá.
Voltando aos chatos. O primeiro tipo de chato, e na minha opinião o menos danoso a saúde, é o surdo. O surdo é aquele que nao escuta nada o que o professor diz e pede para ele repetir tudo palavra por palavra. A frase do surdo é "Professor, o senhor pode repetir a colocação sobre o romantismo alemão?", repetida em média, três vezes por aula. Esse surdo é um pobre coitado. É também comum ver o surdo espiando no caderno do companheiro ao lado, já que perdeu o que o professor acabou de dizer.
O segundo tipo de chato é o que esbanja conhecimento, o vomitador. Esse irrita pacas tb, mas todo mundo percebe que ele é chato e troca olhares quando ele levanta a mão, já prevendo a vomitação aleatória. A frase mais comum do chato é (levantar a mão, esperar ser chamado e...) "Professor, a respeito do que o senhor dizia sobre a obra de X, é também correto afirmar que a obra é baseada num aspecto pscicológico do autor que segundo as citações de Y no livro Z, corresponde a uma nova interpretação de H?". O cara é mala, mas beleza, porque todo mundo percebe que ele é mala.
O terceiro tipo de chato, esse me irrita bastante, é o que repete o que p professor acaba de dizer, só que em outras palavras. É o famoso parafraseador. Frase do parafraseador? Perae que precisa da frase do professor antes. Frase professor "Machado de Assis gostava de usar calças de capoeira" (é um exemplo, claro). Frase do chato " Professor, o famoso escritor mulato do fim do século 19 apreciava usar pantalonas utilizadas pelos negros em sua dança trazida da África?". Esse chato é um caso complicado, pq ele acha que ninguém percebe que ele é charlatão, se acha o bonitão da bala Chita. É comum tb após o professor com um ar enfadado concordar "sim, exatamente isso", o parafraseador fingir que faz uma anotação qualquer sobre a genialidade que ele próprio acabou de dizer. É de chorar.
O quarto, e na minha opinião, intolerável, intragável tipo de chato é o pica pau, aquele que passa a aula inteira balançando a cabeça concordando com o que o professor fala (como se ele tivesse o que concordar ou que discordar sobre alguma coisa). Esse cara é o cara que quando acaba aula vai lá ficar trocando idéia com o professor, mas tipo, TODA A AULA. É o cara que no passado, quando estava no colégio esperava o professor no corredor para ajudar ele a carregar as coisas, que se oferecia para apagar a lousa e no futuro é o cara que vai elogiar a sandália de couro do chefe (não se esqueçam que estamos na FFLCH), um puxa saco. A frase comum do pica pau é qualquer uma que enalteça o professor, normalmente dita para o colega do lado, mas em um tom de voz suficientemente alto para que o professor ouça tipo, "nossa, muito inteligente essa colocação dele, né?"
O capítulo sobre chato é merecedor ainda de muita reflexão, mas por enquanto, a minha observação acaba por aqui.
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Ir para a USP tb é a via crúcis. Já tentei alguns caminhos (Brigadeiro, Augusta e Rebouças) e todos eles são prenúncios do purgatório. Juro pela minha nem tão boa alma que outro dia vi um moleque com o rosto esmagado na porta do busão, fazia até bolhas a pressão do rosto sobre o vidro. Daí não tem como né, mandei o busão passar direto, afe. Outro dia, consegui ir sentada no motor do busão, do lado do motorista. E aqui vou confessar que tava me sentindo a rainha do busão. Até a alça da minha mochila enganchar no cambio e eu levar um xingo (justificado) do motô. Fui saber depois que reza a lenda urbana (desgraçado!) que sentar no motor do busão dá hemorróida. Temo pela saúde do meu botico.
A cobradora do busão que eu sempre pego deve fazer parte do movimento sindical (sem preconceito). Todos os dias, 7 e 25 da manhã, ela contagia a fauna busaniana a pensar no coletivo, no companheiro do outro lado da roleta "Gente, por favor, vamos dar um passinho para trás, por favor, todo mundo quer chegar no trabalho, quer estudar, então vamos todo mundo dar um passinho para trás". Dai rola um movimento coletivo e sobra um espaço ínfimo que cabe um cidadão dito honrado. E assim se sucede em todooos os pontos de ônibus até a USP.
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Sem contar aquele bandeijão. A comida é boa e tal, mas cada peça que aparece. O de Lima, um amigo meu que faz matemática aplicada (boa coisa tb não é, né) me contou que outro dia um moleque resolveu guardar um lugar no bandeijão. É a mesma coisa que pedir para um office boy guardar seu lugar na fila do banco, já era, mano. Daí veio uma mina, na moral, e tirou os livros de cima da cadeira, sentou e começou a mandar bala no bandeijão. Nisso o moleque chegou e reconhecendo seu posto tomado, começou a se esgoelar no bandeijão "Genteeee, que falta de bom sensoooooo", hahahahaha, é de morrer, ne?
Minha parte no bafão ficou por um dia que eu estava pegando feijão e deixei a concha cair dentro da bacia. nisso começou a formar uma puta fila trás de mim, nossa, mano, muita gente, e começaram a ficar inquietos. "porque tá demorando?", uma mina me perguntou. e eu "sei lá, algum idiota deixou cair a concha dentro do feijão" hahahahahahahahahaha, fiquei indignada.
