Um post amargo de uma pessoa triste
Sempre paguei pau para os caras que têm os culhões de levar a tragédia até seu limite.
Lembro de que quando vi Irreversível fiquei impressionada com a cena do estupro, mas não propriamente por sua brutalidade, mas sim porque naquele contexto somente aquela cena, do jeito como ela era, fazia sentido. Para os que não viram um filme, a Monica Belucci é estuprada por longos e intermináveis minutos do filme. Falar que o estupro é brutal é pleonasmo. Admirei o Gaspar Noe por ter tido a coragem de dar ao filme o que era do filme. Para o filme, fazia todo o sentido a cena durar aquela eternidade e o cineasta pagou para ver, mesmo provocando a agonia dos espectadores. Ele levou a cena até seu limite.
Mas quando isso acontece na vida real, as coisas não são tão fáceis assim. Quando uma coisa muito ruim acontece na sua vida, alguma coisa que vc simplesmente não esperava e vc nega-se veementemente a acreditar que aquilo possa estar acontecendo com vc, vc se pergunta e a resposta é que realmente não há limites para a tragédia.
Vc, personagem antagonista do enredo, começa a ver os fatos se desenrolarem de um modo estranho e não verossímil com o que até então estava ocorrendo. E então vc pensa "Não, isso não vai ocorrer porque simplesmente não faz o menor sentido isso acontecer, dentro do enredo isso não teria a menor função, cadê a catarse?". Bingo! A coisa aconteceu.
Daí, vc, ser que se considerava até então ateu, vê-se apegado às míseras esperanças de realmente existir alguma coisa que rege essa merda e que é justo e não vai deixar isso acontecer. Mas "Jede für sich und Gott gegen alle", já dizia o ditado. E depois que vc deu de tudo o que vc acreditava e isso não acontece, para quem apelar?
Miguel, meu sobrinho, virou uma estrela.
E porque é tão dificil aceitar que isso pode não ter tido um sentido maior, que pode simplesmente ter acontecido? Sentada em um banco do shopping após uma crise de choro causada por crianças saudáveis e saltitantes, uma moça puxou papo comigo e tirou do saco plástico um exemplar de "Nada é por acaso", da Zibia Gasparetto. Que cacete, porque para tudo tem que ter um sentido? É tão difícil aceitar que talvez a gente só tenha sido jogado aqui, que a nossa missão ESPIRITUAL seja nascer, comer, apodrecer gradativamente e morrer?? Não é possível que o conceito de justo ou injusto seja aplicado nesse mundo. É algum outro, que deconhecemos, ou no que acredito mais, é simplesmente aleatório.
